Livro dos 50, de Lausamar Humberto
Livro dos 50, de Lausamar Humberto

Livro dos 50, de Lausamar Humberto

por Amanda Fievet Marques,

escritora e navalhista assistente

(perfil completo)

O primeiro folhear de páginas da antologia poética Livro dos 50, de Lausamar Humberto produz um súbito encantamento. Cada poema é acompanhado por uma fotografia de Eduardo Uliana Barboza, e ambos, poema e fotografia parecem suspender o tempo e o espaço do leitor, deslocando-o a um mundo desconhecido.

É assim que o eu lírico define sua competência no poema Livre, um dos que encerram a antologia. Ele a quem pouco se lhe dão as obrigações, prazos e disciplina, define-se pelo pendor ao deslumbramento: “Para o espanto, estou de prontidão” (HUMBERTO, 2024, p. 118). Depois, tornado sintaxe, imagem e, finalmente, verso, o poeta encontra nas palavras sua matéria-prima – “numa noite de espanto ou de desespero / apanha-as, uma a uma, costura-as” (ibid., p. 114) –, e o ofício do poeta confunde-se, assim, com o do alfaiate. Mas, ele é também o confessor da angústia e da solidão, “(…) o herdeiro / dessa tristeza ancestral” (ibid., p. 92). A ele cabe a observação da natureza, suas idiossincrasias. As miudezas de um dia de vento e de chuva, sua intraduzibilidade declarada não impede a poesia: “versos são escritos, / enquanto se procura descobrir / a linguagem dos pingos” (ibid., p. 88). De dois sabiás, que gorjeiam e bicam uma laranjeira, o eu lírico considera: “No diálogo de assovios, / não falam sobre o hoje, / sobre o ontem, ou outro dia qualquer” (ibid., p. 94). Donde ele opõe a “organização rígida” que assumiu a vida humana, face à “(…) fluidez que a vida é” (idem).

A vida, aliás, manifesta alguns contornos e variações em Livro dos 50, como se espera do que fluido é. Ora, a “Vida é vastidão” (ibid., p. 82), ora “a vida em improviso / sempre fora gambiarra” (ibid., p. 70), ora “a vida é sempre grave! / Mesmo que vivida em tom maior” (ibid., p. 30). Dessa forma, o eu lírico que se anunciara desde o início inapto – “Minhas incapacidades / São mais eu / Que minhas raras aptidões” (ibid., p. 22) –, que revelara ser seu talento o desacerto – “O erro é sua vocação” (ibid., p. 70) – e seu doutoramento o desterro – “Doutor em solidões avulsas” (ibid., p, 74) –, acaba por conduzir o leitor a uma reflexão sobre a vida, a morte e o que dela fica. Até a morte propriamente dita, ficamos ainda com as elucubrações sobre tudo o que poderíamos ter sido e feito, como no poema Resquícios: “Restamo-nos com o que sobrou / do que deixamos de ser” (ibid., p. 42). Já no poema Só memória, nem as grandes figuras históricas como Napoleão resistem à passagem do tempo: “O pior de nossa morte é que não faremos falta. / Não faremos falta alguma” (ibid., p. 40). Ainda assim, a única coisa que resta da morte de outrem parece ser a lembrança, como indicado nos poemas Genealogia surrealista e A mãe. Em Questão de etiqueta, o eu lírico lida de forma bem-humorada com a imprevisibilidade da morte, enquanto em Recomendações para depois de minha morte também o faz sem dramaticidade, aceitando o fim como inevitável:“Eu prometo, e creiam nesta promessa póstuma, / ali, eu nunca mais estarei” (ibid., p. 67).

Entre o nascimento e a morte, a vida. E nos poemas que ela rememoram, o leitor se depara com torneios de expressão singulares, que costuram os versos e a dicção particular dessa antologia: “amarelouquecendo” (ibid., p. 32), “demora-se um nada” (ibid., p. 53), “que só se comia em tantos” (ibid., p. 56), “paciencioso” (idem), entre outros. Desse mundo que se desvela em poesia, povoado por cores e vozes, terminada a leitura permanece a “potência” (ibid., p. 110) do que foi dito, em contraponto tão necessário ao nosso mundo de cá permeado por burburinhos inúteis e signos vazios.

REFERÊNCIAS

HUMBERTO, Lausamar. Livro dos 50. Belém: Folheando, 2024.


Lausamar Humberto

Lausamar Humberto Alves nasceu em Barretos, SP, em 1975. Vive em Frutal, Triângulo Mineiro, Minas Gerais.  É formado em Jornalismo e Direito. Foi professor e coordenador do curso de Jornalismo da Universidade do Estado de Minas Gerais – Unidade Frutal por 10 anos, até 2015. Lançou seu primeiro livro de poemas em 2015, O que resta.  Já são 7 livros publicados, sendo o último a antologia poética O Livro dos 50, celebrando seus 50 anos. Sobre sua poética, diz Lausamar: “escrevo sobre o que me aflige, sobre o que me incomoda, sobre o que me desconforta e o que me espanta. “A poesia nasce do espanto”, Ferreira Gullar. De acordo. Meus poemas não são brisa suave e refrescante. Vêm em redemoinhos. Meus versos são sobre ideias, aflições, iras e afetos.” Desde 2021, ocupa a cadeira número 5 da Academia Frutalense de Letras, da qual é membro efetivo fundador.

19 comentários

  1. Luciano leali santana

    Tive o privilegio de conhecer e poder ter convivência com ele.
    O ” Lausa”
    e uma ensiclopedia humana.

    Parabens Irmao
    Deus continue sempre ati iluminar nas realizavoes de seus sonhos.
    Leali clicando

    1. Cauê Teixeira

      Conheço pessoalmente. Por trás de toda a camada intelectual, das titulações e erudição, é um sujeito bem simples e direto.

      Fala o que pensa, sem rodeio, eufemismo ou romantização, mas de incrível forma, mesmo assim se mantém em tom cordial.

      Não tenho o hábito de ler poesia. Outros gêneros me fascinam muito mais e não exigem do leitor tanta paixão e vocação. Creio que a poesia é para alguns poucos, em parte é esforço, mas muito vem do dom.

      Um dom de análise aos detalhes da vida, à natureza, aos sentimentos, às banalidades e anedotas do cotidiano…

      Lausamar, apesar do realismo (para alguns, não para mim, pessimismo) consegue com poucas palavras, mas muito significado, captar minúcias que apenas um legítimo poeta é capaz.

  2. natália

    a poesia de lausamar humberto se tece entre o espanto e a melancolia, entre a fluidez da vida e a precisão da palavra. no livro dos 50, o poeta realmente costura versos como um alfaiate, transformando a delicadeza do instante e o peso da existência em matéria poética. a morte surge sem dramatização, apenas como parte do fluxo da vida, enquanto imagens e invenções linguísticas dão à obra um tom singular e profundamente humano. é uma poesia que permanece, como um eco sensível em meio ao ruído do mundo.

  3. miguel queiroz

    foi uma honra enorme ter conhecido o lausamar através da AFL!! e prestigiar o lançamento do livro dos 50 foi uma honra maior ainda, foi sua poesia que me fez olhar para a cidade com outros olhos, mais sensíveis!

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