escritora e navalhista assistente
O primeiro folhear de páginas da antologia poética Livro dos 50, de Lausamar Humberto produz um súbito encantamento. Cada poema é acompanhado por uma fotografia de Eduardo Uliana Barboza, e ambos, poema e fotografia parecem suspender o tempo e o espaço do leitor, deslocando-o a um mundo desconhecido.
É assim que o eu lírico define sua competência no poema Livre, um dos que encerram a antologia. Ele a quem pouco se lhe dão as obrigações, prazos e disciplina, define-se pelo pendor ao deslumbramento: “Para o espanto, estou de prontidão” (HUMBERTO, 2024, p. 118). Depois, tornado sintaxe, imagem e, finalmente, verso, o poeta encontra nas palavras sua matéria-prima – “numa noite de espanto ou de desespero / apanha-as, uma a uma, costura-as” (ibid., p. 114) –, e o ofício do poeta confunde-se, assim, com o do alfaiate. Mas, ele é também o confessor da angústia e da solidão, “(…) o herdeiro / dessa tristeza ancestral” (ibid., p. 92). A ele cabe a observação da natureza, suas idiossincrasias. As miudezas de um dia de vento e de chuva, sua intraduzibilidade declarada não impede a poesia: “versos são escritos, / enquanto se procura descobrir / a linguagem dos pingos” (ibid., p. 88). De dois sabiás, que gorjeiam e bicam uma laranjeira, o eu lírico considera: “No diálogo de assovios, / não falam sobre o hoje, / sobre o ontem, ou outro dia qualquer” (ibid., p. 94). Donde ele opõe a “organização rígida” que assumiu a vida humana, face à “(…) fluidez que a vida é” (idem).

A vida, aliás, manifesta alguns contornos e variações em Livro dos 50, como se espera do que fluido é. Ora, a “Vida é vastidão” (ibid., p. 82), ora “a vida em improviso / sempre fora gambiarra” (ibid., p. 70), ora “a vida é sempre grave! / Mesmo que vivida em tom maior” (ibid., p. 30). Dessa forma, o eu lírico que se anunciara desde o início inapto – “Minhas incapacidades / São mais eu / Que minhas raras aptidões” (ibid., p. 22) –, que revelara ser seu talento o desacerto – “O erro é sua vocação” (ibid., p. 70) – e seu doutoramento o desterro – “Doutor em solidões avulsas” (ibid., p, 74) –, acaba por conduzir o leitor a uma reflexão sobre a vida, a morte e o que dela fica. Até a morte propriamente dita, ficamos ainda com as elucubrações sobre tudo o que poderíamos ter sido e feito, como no poema Resquícios: “Restamo-nos com o que sobrou / do que deixamos de ser” (ibid., p. 42). Já no poema Só memória, nem as grandes figuras históricas como Napoleão resistem à passagem do tempo: “O pior de nossa morte é que não faremos falta. / Não faremos falta alguma” (ibid., p. 40). Ainda assim, a única coisa que resta da morte de outrem parece ser a lembrança, como indicado nos poemas Genealogia surrealista e A mãe. Em Questão de etiqueta, o eu lírico lida de forma bem-humorada com a imprevisibilidade da morte, enquanto em Recomendações para depois de minha morte também o faz sem dramaticidade, aceitando o fim como inevitável:“Eu prometo, e creiam nesta promessa póstuma, / ali, eu nunca mais estarei” (ibid., p. 67).
Entre o nascimento e a morte, a vida. E nos poemas que ela rememoram, o leitor se depara com torneios de expressão singulares, que costuram os versos e a dicção particular dessa antologia: “amarelouquecendo” (ibid., p. 32), “demora-se um nada” (ibid., p. 53), “que só se comia em tantos” (ibid., p. 56), “paciencioso” (idem), entre outros. Desse mundo que se desvela em poesia, povoado por cores e vozes, terminada a leitura permanece a “potência” (ibid., p. 110) do que foi dito, em contraponto tão necessário ao nosso mundo de cá permeado por burburinhos inúteis e signos vazios.
REFERÊNCIAS
HUMBERTO, Lausamar. Livro dos 50. Belém: Folheando, 2024.

Lausamar Humberto Alves nasceu em Barretos, SP, em 1975. Vive em Frutal, Triângulo Mineiro, Minas Gerais. É formado em Jornalismo e Direito. Foi professor e coordenador do curso de Jornalismo da Universidade do Estado de Minas Gerais – Unidade Frutal por 10 anos, até 2015. Lançou seu primeiro livro de poemas em 2015, O que resta. Já são 7 livros publicados, sendo o último a antologia poética O Livro dos 50, celebrando seus 50 anos. Sobre sua poética, diz Lausamar: “escrevo sobre o que me aflige, sobre o que me incomoda, sobre o que me desconforta e o que me espanta. “A poesia nasce do espanto”, Ferreira Gullar. De acordo. Meus poemas não são brisa suave e refrescante. Vêm em redemoinhos. Meus versos são sobre ideias, aflições, iras e afetos.” Desde 2021, ocupa a cadeira número 5 da Academia Frutalense de Letras, da qual é membro efetivo fundador.
Lausamar não se contenta apenas em ver, se impressionar e criar uma visão poética.
Ele leva sua obra para que os outros sintam e também se inspirem a criar sua própria interpretação.
Muito obrigado
Descrição perfeita de uma obra singular. Parabéns, Amanda. Parabéns, poeta!
Obrigado, meu caro
Tive o privilegio de conhecer e poder ter convivência com ele.
O ” Lausa”
e uma ensiclopedia humana.
Parabens Irmao
Deus continue sempre ati iluminar nas realizavoes de seus sonhos.
Leali clicando
obrigado
A sublime arte de escrever sobre o escrito. Feliz demais com visão da Amanda sobre meus versos.
Conheço pessoalmente. Por trás de toda a camada intelectual, das titulações e erudição, é um sujeito bem simples e direto.
Fala o que pensa, sem rodeio, eufemismo ou romantização, mas de incrível forma, mesmo assim se mantém em tom cordial.
Não tenho o hábito de ler poesia. Outros gêneros me fascinam muito mais e não exigem do leitor tanta paixão e vocação. Creio que a poesia é para alguns poucos, em parte é esforço, mas muito vem do dom.
Um dom de análise aos detalhes da vida, à natureza, aos sentimentos, às banalidades e anedotas do cotidiano…
Lausamar, apesar do realismo (para alguns, não para mim, pessimismo) consegue com poucas palavras, mas muito significado, captar minúcias que apenas um legítimo poeta é capaz.
Valeu, meu caro.
a poesia de lausamar humberto se tece entre o espanto e a melancolia, entre a fluidez da vida e a precisão da palavra. no livro dos 50, o poeta realmente costura versos como um alfaiate, transformando a delicadeza do instante e o peso da existência em matéria poética. a morte surge sem dramatização, apenas como parte do fluxo da vida, enquanto imagens e invenções linguísticas dão à obra um tom singular e profundamente humano. é uma poesia que permanece, como um eco sensível em meio ao ruído do mundo.
Muito bom ler tudo isso. Muit obrigado…
Lausamar Humberto tem uma sensibilidade poética incrível. Muito bom que suas criações alcancem novos leitores. Parabéns, poeta!
Muito obrigado…
foi uma honra enorme ter conhecido o lausamar através da AFL!! e prestigiar o lançamento do livro dos 50 foi uma honra maior ainda, foi sua poesia que me fez olhar para a cidade com outros olhos, mais sensíveis!
que coisa boa de ler, Miguel…
Parabéns caro Lausamar, por mais esta obra publicada, vou garantir o meu exemplar!! Que Deus continue iluminando sua caminhada!!! Abs.
obrigado
Sou grande fã da sensibilidade do Lausa! Comecei a leitura e estou amando
Obrigado, Geovanna