por Andreia Santos,
escritora e navalhista assistente
“Todas as palavras de afeto eram sempre escolhidas com muita violência, ancoradas por um tipo de amor que estampa capa de jornal. Todo dia, uma mulher é assassinada porque alguém a odeia, e o crime é chamado de passional. Como se o afeto estivesse no ferir” (Malcher, 2023, p. 18)
Monique Malcher deixa as palavras cortantes em Flor de Gume, a paraense neste livro de estreia faz um grande mosaico. Entre memórias a menina-mulher da história vai narrando suas aventuras e desventuras. A escrita é barroca, com inúmeros elementos, cheia de detalhes e informações Não economiza em nenhuma classe de palavra, para nossa felicidade. É um livro farto. Farto no conteúdo, na estética, na criação das personagens. Vale salientar que a própria autora fez as ilustrações, por sinal, belíssimas.
Sobre a classificação do livro é como querer desencaixar ou encaixotar as mulheres. Particularmente não consigo afirmar se é autobiográfico, memorialístico, autoficção ou uma prosa poética. Na verdade é a escrita em seu estado mais cru, no sentido de doer, apanhar com as palavras, sentir a dor daquelas mulheres quando as palavras parecem jogadas no leitor. As mulheres cortadas pelo caos da vida diária, ainda passam pelo tormento da violência física e psicológica.
Premiado pelo Jabuti 202, o livro apresenta uma narrativa contendo trinta e sete contos, distribuídos em três partes. A primeira delas: “Os nomes escritos nas árvores, os umbigos enterrados no chão”. A segunda: “Quando os lábios roxos gritam em caixas de leis herméticas” e a última: “O reflorestar do corpo, o abandonar das pragas”.

O pai é a encarnação do bonachão, do esperto, do cara que não precisa de motivo nenhum para agredir uma mulher. Se faz de vítima para paralisar todos os sentimentos e sentidos da filha. Fazendo alienação parental. Mas a todo momento a reduz “Meu pai me fez passar limão” nas pernas para que clareasse minha “sujeira” da virilha. O que meu corpo gordo tinha feito de errado”, confidencia a personagem. E pela narrativa inteira vemos um homem desdenhar, rir, maltratar, destratar, etc. Apesar de machucada cedia sempre aos apelos, porque se sentia culpada por tudo que acontecia ao pai. Uma doença forjada, por exemplo, Ensinar a filha a usar uma arma, com a desculpa de dizer que ela precisava saber se defender. Todas as imposições pareciam. Espancava a filha, mas contava histórias tristes que o padrasto dele fazia com ele. “Como ele era capaz?”, perguntava o homem que sentia prazer em violentar a filha.
A natureza, ora descomunal, ora vital, ora divina, fazia com que a força brotasse dentro dela, fosse por meio das árvores, nas folhas, nos frutos. Era forte, mas a jornada até entender isso foi árdua. No livro, um trecho, ousei classificar de poema jorra essa natureza ao leitor: “sentiu o cheiro doce de caju e a carne dele ia chorando palavras, que grudavam na colher, que mexia e mexia com o açúcar dos dias que se aprumaram”. O olhar da mãe, ela nunca conseguiu decifrar, fazendo lembrar o conto “Olhos D’água” de Conceição Evaristo, (Pallas, 2023), do livro homônimo, retratam a desesperança e o desespero.
Malcher, seja no balanço dos barcos, em que se equilibrava ou em uma cidade maior, possuía o desejo de desaguar os sonhos. Sabia que era potente. “Hoje sei que o mundo não é só isso, mas esse balançar das águas continua sendo tudo para mim. Sou embarcação, foi a cidade que às vezes fez o coração afogar. E quanto a não se debruçar muito para ver a água, isso aprendi com o puxão de orelha da minha mãe”
Quando escreve as palavras elas gritam, são socos no estômago e é impossível sair a mesma quando se entra nas palavras-fogo de Malcher, em Flor de Gume constatamos que a autora desafia o que parece ser impetuoso e maior que ela, mostrando uma resistência indestrutível. O livro não é fluído é denso e tenso e a cada conto você tem a certeza de que a personagem está em uma guerra, mas vai aprendendo a usar as armas que tem: sua própria inteligência, perspicácia e a flor de gume embrenhada dentro de si e que a sustenta.
Flor de Gume não tem significado, porque todas as palavras foram ditas pela autora em cento e cinquenta e duas páginas. Uma ode à natureza-mulher. O livro não pode ser fixa do em nenhuma classificação (ainda bem), deixa um gosto agridoce, um lamento, mas também afeto apoteótico às mulheres, pois a autora desconhece que a mulher tenha um lugar definido, por alguém. Malcher agiganta “qualquer” palavra que inseriu neste livro magistral e mostra o lado deusa, mas também a caça às bruxas. “Quero ser mais com outros percursos, com menos dor. Acredito em mim, acredito nas mulheres, pobres, fodidas, trans, travestis, pretas, indígenas, sobreviventes, ribeirinhas”.
Referências
EVARISTO, Conceição. Olhos d´ água. Rio de Janeiro: Pallas: Fundação Biblioteca Nacional, 2016.
MAlCHER, Monique. Flor de Gume. São Paulo: Editora Jandaíra, 2023.

Monique Malcher de Carvalho, mais conhecida como Monique Malcher, é uma escritora, jornalista, antropóloga e artista plástica brasileira. Em 2021 foi agraciada com um dos maiores prêmios da literatura nacional: o Prêmio Jabuti na categoria Contos, por seu livro Flor de Gume, publicado em 2020 pela editora Jandaíra.