Cecília havia entrado no aplicativo há duas semanas, ela não conseguia acompanhar as mensagens. Embolava-se e se perdia. Alguns que ela tinha interesse, ela respondia, depois esquecia e as mensagens iam ficando para baixo. Eduardo fora um deles. Por sorte, mesmo aparentemente ignorado, ele mandou uma nova mensagem justo quando Cecília estava emperrada em um projeto e buscando distrações. Eles tiveram a primeira conversa ininterrupta. Ao final, uma proposta dele, aceita por ela, para o sábado à tarde.
Eduardo e Cecília estavam sentados no Tingui, numa parte em que árvores e um trecho banco margeavam o rio. À esquerda, numa brecha da mata, dava para ver os carros passando pela rua. Na frente deles, apenas as águas calmas do lago e a pequena floresta. Os quero-queros caminhavam com suas alongadas e finas pernas como se pisassem em ovos. Pálpebras vermelhas saltadas.
— Adoro a natureza, — disse Cecília com as pernas morenas esticadas e as mãos nos joelhos —, tenho embarcado na onda dos jardins verticais ultimamente, induzindo os clientes a terem. Se eu pudesse, colocaria até dentro dos quartos, porém, dá um trabalho do caramba e na correria do dia a dia acaba atrapalhando.
— Adoro também, — concordou Eduardo deitado com a cabeça na mochila de couro marrom —, mas vou admitir que meu apartamento está bem pobre nesse quesito. Quem sabe você me dá uma luz, o que acha de uma planta carnívora no centro da sala?
— Perfeito, chama Divoneia, acho elas sublimes. Acho que a minha Mel iria acabar mordendo elas ou mexendo com as patas, especialmente quando visse elas se mexerem. Elas são bem seguras, — Cecília deu de ombros —, o problema seria para a plantinha mesmo.
— Eu não teria esse problema, — disse Eduardo tamborilando os dedos na barriga —, o Tião é bem desinteressado em tudo, salvo sair sozinho e me julgar.
— Ahhh, que fofo, — disse Cecília de sorriso aberto e olhando para Eduardo.
— Há controvérsias, — Eduardo sorria de volta- —, qualquer dia desses vou comprar um borrifador e ensinar umas lições para aquele gato.
Cecília deu um murrinho no ombro de Eduardo, ele se impressionou com a força dela.
— E qual foi a casa ou apartamento que você mais se orgulhou de decorar? — Perguntou ele beliscando delicadamente a cintura dela como revanche. — No caso, o resultado final, não necessariamente de quem era.
— Sem dúvidas uma kitnet da noite estrelada, — respondeu Cecília voltando seus olhos para o lago. — Era de um psiquiatra recém-formado, ele havia juntado o dinheiro e dado entrada no primeiro imóvel. Disse que ainda tinha alguns longos anos de carreira pela frente antes de pensar em casar e ter filhos. Queria algo bom e barato e que não desse trabalho. Com alguns meses, ele se sentia insatisfeito com o lugar, faltava vida para ele. Ele dizia que o branco da parede começou a lembrá-lo dos hospitais. Ele tirava plantões para complementar a renda, clinicava pouco ainda. Não tinha uma boa clientela. Ele dizia que chegava tão exausto do plantão que só queria chegar e estar em um lugar diferente. Falou que era fã do Van Gogh e eu disse: deixa comigo! — Exclamou Cecília arqueando as sobrancelhas e balançando a cabeça.
Alguns meses antes, Cecília conversava com Lucas no escritório.
— Entendi, — disse ela balançando a cabeça —, podemos trazer essa ambientação com quadros, esculturas, cores de parede.
— Eu fui em um barzinho em São Paulo, — Lucas balançou o indicador —, ele tinha paredes inteiras decoradas, pintadas, quadros. Não lembro dos desenhos, havia asas, nuvens, cálices, rosas, alguns bem coloridos, o lugar inteiro. Eu adorei. Queria algo assim.
Cecília sorriu: — Estou adorando a proposta, Lucas. Normalmente, somos mais limitados pois os clientes não desejam algo … demais, na opinião deles. Eles são bem conservadores na decoração. Acho que morrem de medo de uma visita achar brega.
— Bem, não é o caso, — disse Lucas escorando-se na cadeira acolchoada. — Na verdade, te dou total liberdade. Só quero algo que me surpreenda, que eu adore e que transforme o ambiente. Eu vejo muita desgraça no trabalho. Todo médico vê, mas para mim, os psiquiátricos são os piores. Antes fosse cirurgiar acidentados, tratar queimados ou doenças de pele. Eu acho que as doenças mentais são as que mais mexem com a gente. Tem, claro, sua parte visivelmente horrível, quando eles definham, se melam de dejetos, não tomam banho, acabam-se nas drogas. Essa parte é feia também. Mas, para mim, — Lucas se curvou e baixou os ombros —, a pior parte é ver a mente humana dando curto. Escutar as histórias tristes, de familiares com lágrimas nos olhos e amor no coração, pedindo ajuda, dizendo que não aguentam mais, já fizeram de tudo. Mas as pessoas que elas amam estão distantes demais para escutar os pedidos. Ou também as que são abandonadas pelos familiares, que já não aguentam mais, que torcem para ele não retornar para casa depois do surto. Sabia que eu nunca peguei um paciente que estivesse tão fora da realidade que não sentisse quando fora rejeitado pela família? É sútil, você toca no assunto e uma parte do lábio baixa, sobrancelhas levantam, e eles vêm com o assunto de seus devaneios. Por pior que esteja a sua saúde, se você consegue manter uma mente suficientemente sã, você ainda vive. Ainda forma relações, persegue sonhos, conquistas. Mas imagina não puder fazer nada disso? As vozes não deixam, ou sua concentração simplesmente não está lá, não há como se pensar num futuro. Imagina ser um fardo para qualquer pessoa com quem você interaja? Ser ignorado nas ruas. Gritar perante um semáforo e sentir pelo canto do olho as pessoas desviando a rota para não passar por você. É um destino terrível. Grego até, como se você tivesse irritado algum Deus.
— Nossa, — Cecília estava com a boca semiaberta e as sobrancelhas pesadas —, realmente. Nunca tinha pensado por esse lado.
— Sim, — Lucas ponderava com a cabeça —, então, queria algo que me colocasse em um outro lugar, alheio a tudo. Dito isso, pode caprichar e deixar a imaginação tomar de conta. Quero tomar absinto vendo minha casa tomar vida. Quem sabe vejo tudo com redemoinhos.
— Pode deixar, farei o meu melhor, — Cecília começou a digitar.
Assim que Lucas saiu, Cecília estava no seu macbook do trabalho. Os softwares abertos, linhas pretas em fundos brancos. Ela criava várias versões. Uma mistura de quadros de Van Gogh cujo desenho saía do quadro, continuava na parede e ia para o próximo, mudando, conectando-se, transformando-se. Ela pensou em tentar colocar todos os quadros dele na Kit Net. Ela era apertada, porém, e, descobriu ela, eram mais de mil.
— Ok, ok… o homem produzia— dizia Cecília para si.
Ela pensou em colocar tonalidades semelhantes por quadrantes, reunindo os quadros principais. Quem sabe frases soltas dele. Não, as frases estragavam uma mensagem que não precisa de palavras. Ela buscou esculturas com aqueles redemoinhos. Havia algumas, era uma possibilidade. Talvez até móveis brancos para trazer alguns dos traços das pinturas, como resquícios, como se o pintor, desvairado, louco, cortando uma orelha, tivesse respingado neles. Cecília ponderava e ponderava.
— Você é fã dele também? — Eduardo olhava as folhas dançando com o vento.
— Não, não sou muito ligada a pinturas. Ou melhor, em artistas e movimentos. Gosto de uma pintura por si, não sei entender ou pontuar. Enfim, — continuou Cecília com um abano de mãos —, peguei os quadros do Van Gogh e comecei a imaginar aquela sensação de movimento, aquelas cores azuladas, amareladas, amarronzadas. Decidi que seria brega ter uma réplica dos quadros, então propus pintar as paredes, não com quadros específicos, mas com aqueles movimentos, o ondulado. Partes da casa tinham referências dos quadros mais famosos, claro, mas não era a intenção. Eu queria uma atmosfera van gogiana, uma sensação, não uma homenagem. Não podia ser só azul e estrelas. Na sala deixei os céus e campos predominarem. Na cozinha, coloquei florestas e verde. No quarto dele, a noite estrelada e os campos de trigo. Tudo fluía, era lindo. Ele amou. Soube que Van Gogh pintava padrões que existiam na natureza, as ondas, quando estava em surto. Sem o surto ele errava um pouco, se você parar para calcular as ondulações. Alguns teorizam o uso de psicotrópicos, pois os usuários reportam ver a natureza daquele mesmo jeito que ele pintava, tipo LSD. Outros que não existia uma substância assim que ele tivesse acesso. Tinha que ser ele, sem precisar dela. Só o artista e sua mente. Enfim, tive que contratar um pintor colega meu para fazer, ele disse que se sentiu o Michelangelo. E agradeceu que era Van Gogh, o impressionismo é bem rápido de se trabalhar. Se fosse outro, ele me disse que teria deixado passar ou exigido assistentes. Adoro aquele meu trabalho. Mais do que todos os outros.
— Nossa, — Eduardo balançava a cabeça —, muito bom. Ter um apartamento assim deve ser bem mais legal que qualquer galeria ou coleção rara de quadros.
— Gosto dessa ideia, de pegar a essência do artista e dar vida a ela, extrapolá-la, fugir da mera reprodução, — Cecília olhava as águas ondularem. — Para mim, é como se, num daqueles desenhos do Mikey mágico, ele tivesse enfeitiçado os quadros do Van Gogh e eles saíssem com vida e tocando tudo.
— Analogia perfeita, querida.
Cecília estava numa cafeteria próxima do trabalho e olhava o café preto em sua xícara, olhava a fumaça escapar, ondulante, partindo com destino incerto. Ela começou a ler um livro que comprara sobre o artista. Van Gogh usava de pinceladas expressivas e grossas (usando por vezes camadas, técnica dita impasto), gostava de cores vibrantes, sem se prender à realidade, mas querendo expressá-la com emoções e estados internos, como ele as via por dentro, ele gostava de pintar natureza, mas transmitindo uma pessoalidade naquele cenário supostamente impessoal e objetivo, gostava de pintar ao ar livre, aproveitando as oscilações do dia, apesar de tão único, Van Gogh era muito influenciado por mestres e por pintores contemporâneos. Noite Estrelada contava uma história de luta pessoal.
Eduardo e Cecília se levantaram e foram caminhar pelo parque. O sol começava a cair no horizonte, o laranja tingindo a tarde, poucas pessoas caminhavam pelas trilhas, um rapaz de bicicleta e som alto passou por eles tocando um rap qualquer.
— Seu sorriso passa uma boa energia, moça, — Eduardo a olhava.
— Obrigado, o seu também, — disse Cecília sorrindo ainda mais.
Van Gogh começou sombrio e realista, com Os Comedores de Batata. Depois foi aprendendo o valor das cores vivas, adentro no impressionismo e pontilhismo. Com todo o incidente da orelha, ele internou-se e produziu sua obra mais famosa. Van Gogh chegou a produzir setenta pinturas em dois meses. Matou-se com tiro no peito, não era um homem de mirar na cabeça. Morreu, talvez pensando no próprio fracasso. Seu irmão, com quem trocara cartas assiduamente durante toda a vida, morreu seis meses depois. A cunhada, senhora Johanna van Gogh-Bonger, porém, tomou para si a tarefa que dois marmanjos não conseguiram. Ela promoveu as obras, fez exposições. Conhecemos as atribulações coloridas e vivas e em movimento hoje por causa dela. Obrigado, Johanna.
Conforme caminhavam e viam mais do parque, passando pelas capivaras, pelos lugares vazios com vãos para churrasco, eles se aproximavam. Braços se encostavam, costas de mãos se conheciam.
— E qual a sua resposta para a pergunta fundamental sobre o universo e tudo mais? — Disse Eduardo encostado em uma das árvores, Cecília veio ao seu lado, ombro com ombro.
— Ele é filósofo também, para mim… — Cecília apertava os lábios, olhava o lago novamente, o lago que meandrava todo o parque. — Construir, criar, trazer algo para o mundo, seja com as pessoas que você gosta, seja no trabalho, seja em obras próprias. E você? Mocinho, qual a sua resposta? — Cecília se virou para ele.
— Ah… Buscar a magia escondida nas pequenas coisas e ser feliz com isso. Nesse parque, o tom de verde, o som calmo do vento, a vida escondida em cada parte, tudo fala com você e está aí para ser observado, nossas complexidades como pessoas interagindo e criando dentro de nós um sentimento bom. As aventuras do cotidiano. Do hoje. Mesmo que você viesse para aqui sozinha e passasse a tarde lendo um livro, transportada para um lugar que existe na sua imaginação, mágica. Tudo é magia na mente humana. A magia é a nossa linguagem para com o mundo. Uma forma de interpretar as experiências, elas tomando forma na nossa mente. Literatura é meu melhor exemplo.
Cecília apertou os olhos e balançou a cabeça. Eduardo fez o mesmo. Os dois ficaram ali, sentindo a serenidade assoprar por suas peles, a sensação estável e rítmica. Eduardo abriu a palma da sua mão e a estendeu para Cecília, que levou a sua para ele. O calor das duas palmas juntas fez as mãos se unirem. Eduardo a puxou para si, o toque mais leve, que esperava o permitir, Cecília veio e eles ficaram frente a frente. Eduardo deslizou uma das mãos pelo queixo dela, a ponta dos seus dedos passando, continuando e parando atrás da orelha e no início dos cabelos. Eduardo aproximou o seu rosto, as pálpebras baixas, seus olhos focados nos dela, lábios semiabertos. Ele fechou os olhos e encontrou os lábios dela. Cecília o beijou de volta. Eles continuaram se beijando e se abraçando e unindo os corpos.
— Você é um perigo, Eduardo, — disse ela enquanto eles estavam sentados de volta no mesmo local.
— Eu? — Perguntou Eduardo arqueando as sobrancelhas. — Eu que sou o vulnerável nessa situação, rendido aos seus charmes.
Cecília empurrou o ombro de Eduardo.
Cecília caminhava pela kitnet. A sala de estar completamente feita, céu em diversos azuis com nuvens ociosas, campos verdes com plantações eretas e assopradas por um vento. Havia movimento em tudo.
— Jaque, — disse Cecília para o homem de macacão branco sarapintado por todas as cores do arco-íris, — você é um artista, sabia disso?
— Eu literalmente faço quadros também, — respondeu ele aguardando o pincel grosso tingido por verde —, mas eu agradeço o elogio.
— Gente, você poderia falar só: Obrigado, Cecília. Você acha mesmo? — Cecília pôs as mãos na cintura.
— Obrigado, — Jaque fez uma reverência com o torso —, acho que estou de mau humor. As minhas costas estão me matando, o joelho direito também. A idade chega para todos né.
— Você tem vinte e seis anos, não tem? — Perguntou Cecília apertando as sobrancelhas.
— Vinte e cinco, — corrigiu Jaque, ajeitando o óculos tartarugado.
— Entendo, — ela pressionou os lábios.
— E ai? Era isso mesmo? — Jaque deu um sorriso tímido.
Cecília deu uma volta, a cozinha começava a ser pintada, árvores de troncos torcidos e copas escuras, gramas claras e caminhos sinuosos.
— Nem vou me meter, senhor artista, — disse ela cruzando os braços. — Perfeito. Pode continuar. Você está seguindo bem o meu esboço e acrescentando a sua parte. Uma bela parceria.
— Nada como pagar as contas fazendo arte, — disse Jaque dando de ombros.
— E mamãe dizia que era impossível, — Cecília balançou a cabeça.
— Ainda fala, a minha.
— A minha parou.
Os dois ficaram em silêncio e começaram a olhar para o resto do apartamento. Folhas de jornais, lonas, janelas fechadas. O branco acuando-se nas pontas inexploradas pelo pincel.
Eduardo olhava para ela: — Adorei tê-la conhecido, Cecília, vou até redecorar o apartamento — Eduardo estendeu a sua mão.
— Ah, — ela apertou de volta —, aí eu posso ajudar, qual seria a temática?
— Floresta Encantada.
Eles foram depois para uma padaria familiar que ficava próxima do parque. Sentaram numa das mesas externas, cadeiras viradas um para o outro. Eduardo pediu a fatia de nozes e ela o folhado de queijo. Eles comeram, conversaram e voltaram para o carro dela.
— A pé? — Indagou ela negando com a cabeça. — Você é doidinho mesmo, que isso, te dou carona.
— Não me farei de rogado, — disse Eduardo curvando a sua.
No dia do vamos ver, Cecília e Lucas estavam na kitnet. Ao abrir a porta, a sala de estar, com uma mesa de centro de mármore, um sofá de couro de três lugares, uma televisão na parede, uma estante de livros, uma mesa de escritório com um notebook no hack, tudo bem compacto e apertado. O teto estava com o céu azul escuro, com traços de azuis mais mornos e nuvens de um discreto e inquieto branco. Caminhando um pouco para a esquerda, a cozinha americana básica, armários brancos, geladeira inox. No pouco de parede que estava exposto, um caminho que cruzava tudo em um verde quase branco, a floresta tortuosa era feita por um verde espesso e troncos com as linhas balançando, uma corrente de ar parecia passar e assanhar tudo, assanhar a própria essência da floresta. No quarto, uma cama king size com roupa azul, um guarda-roupas de madeira. Na parte mais baixa da parede, campos de trigo oscilavam em seu marrom claro, os pés balançando, corvos em pleno ar com suas asas curvadas, mais acima, uma luz amarelada de fim de tarde trancionava para o céu escuro. A luz e outros astros brilhando lá no alto. Correntes brancas tentaculosas e curvadas rodopiando intrometidas. O azul do céu era frio e escuro ao fundo, porém, com trechos mais mornos, brancos até, fluindo, cobrindo todo o teto. O banheiro era a única parte da casa que estava alheia, azulejos brancos, pia branca, vaso branco, caso Lucas precisasse de um refúgio momentâneo.
Lucas foi para o sofá e se sentou: — Puta merda.
— Belo elogio, — disse Cecília em frente à ele —, engraçado como a entonação muda tudo, né?
— Corrigindo-me: Espetacular, — a voz de Lucas embargou.
— Melhor, — disse Cecília com a garganta também apertando.
— Tá tudo tão certo, tudo tão…, — Lucas gesticulou para o arredor. — Você capturou meus sentimentos.
— Foi um trabalho em equipe, — Cecília mostrou a palma das mãos —, tenho um pintor barra artista que fez o trabalho. Ele é fantástico.
— Eu pediria o contato dele, — disse Lucas entrelaçando as mãos na nuca —, mas acho que se colocar qualquer quadro aqui, vai estragar. Inclusive, pensei que você iria utilizar quadros para isso. Não imaginei que seria só nas paredes e no teto. E ficou bem melhor assim. Ainda bem.
— Eu amei também, porém, — Cecília cruzou os braços —, minha única preocupação é que pode ser um pouco demais. Aqui é um momento de descanso, afinal, não uma galeria em que se passa uma tarde e volta para casa.
— Verdade, — Lucas desceu as mãos para as coxas —, mas me passa uma calma. Sim, tem muito movimento. Conturbado, talvez, em certos pontos? Mas eu gostei muito. Já sou naturalmente uma pessoa bem calma, acho um bom contraste. No hospital, as paredes são pintadas de modo a acalmar, o que me perturba são os relatos, as linguagens corporais, as pessoas. Não há uma pessoa em todas essas pinturas. Isso foi perfeito. Apenas natureza. De paredes calmas e pessoas, estou cheio.
— Então, perfeito.
Enquanto voltavam, Eduardo deslizava seus dedos pelo braço dela, que se arrepiava em alguns momentos. Eles se beijaram novamente na entrada do prédio de Eduardo. Cecília fizera questão de sair do carro para o levar até o portão.
— São e salvo, — disse Cecília ao desgrudar os lábios.
— Minha heroína, — Eduardo estava a poucos centímetros dela.
Eles se despediram com a promessa de retorno. Era noite, uma noite estrelada. A lua bem lá no alto, mordida. Os pontinhos de estrelas distantes. As nuvens escassas e finas. O azul era escuro, não tinha tantas tonalidades. Apenas um profundo e negro azul. Calmo. Mas nessa noite nem Eduardo e nem Cecília estavam prestando atenção nele.

Giovanni de Oliveira criou-se no interior do Ser tão, rumou para a capital e começou a escrever. Foi-se pela área policial e muitas mudanças seguiram, a última o levou à megalópole deste país, ser delegado. Mordido pelo besouro da fantasia, tenta ir ao lugar em que o realismo toca no fantástico, Psiquê por vezes o visita para um café.