Com a navalha: Ana Márcia Diógenes. Segue seus 5 poemas.

Entre palavras
Quarto trancado
segredos no diário
saudade da infância
que se esvai nas letras
em cada lembrança
transposta na escrita
me ver crescer
entre paredes de papel

Lenço
Eu queria chorar
todas minhas lembranças
até secar o passado
e sua insistência
enquanto isso
molho os teclados
buscando as letras
que ainda me sustentam

Sobre caber em si
O passado tem sua escrita
guardada em linhas imaginárias
com imagens que pedem espaço
mas nem cabem no papel
se transforma em sombra
em palavras que não dormem
e seguem lotando a memória
vigiando nossas ousadias

Cheirar palavras
Escrevo para sair do perigo
para voltar a sentir o cheiro
do papel na minha mão
da cor da tinta nos dedos
Escrevo para desembaralhar
os sentimentos presos no tempo
para soltar fogo pelo nariz
para afirmar meu presente

Soletrar memórias
Palavras me fazem companhia
até as que trazem recordações ruins
elas soletram minhas dores
e esqueço a solidão das noites
nas páginas ressentidas pelo tempo
reviro a infância sem letras
tento escrever novas lembranças
nos marca-páginas da memória

Ana Márcia Diógenes, cearense, é escritora e jornalista. Tem oito publicações entre poesia, romance, conto e infantojuvenil. A mais recente, o romance Buraco de dentro, foi lançado na Flip 2024. Mestre em Políticas Públicas, especialista em Literatura, Artes e Filosofia; Psicologia e Responsabilidade Social. Atuou em jornalismo impresso e na TV, foi Secretária Adjunta da Cultura do Ceará, Coordenadora do Unicef e professora de Jornalismo. Escreve na plataforma O Povo Mais e já publicou nas revistas Contos de Samsara, Cassandra, Minha voz cultural e Desvario. Integra os coletivos Escreviventes, Mulherio das Letras e Lamparinas.