RODRIGO PINTO – 6 poemas
RODRIGO PINTO – 6 poemas

RODRIGO PINTO – 6 poemas

O navalhista do dia é Rodrigo Pinto. Vamos de 6 poemas.

 

 

Revista Navalhista

 

 

Giralua

 

Sob a sombra basta onde reina Nix, 

Giralua sonha, esdrúxulo e só. 

 

Ignora o sol, sua tez dourada, 

e procura a noite, manto negro e bom.

 

Pétalas serenas olham para cima,

cheirando as estrelas, caçando o luar. 

 

Em suas sementes, mistérios e lutos: 

rasgadas paixões que a luz já não dá.

 

Raízes profundas na terra orvalhada

sugam o nefasto baço putrefato

 

dum jovem poeta há tempo enterrado:

musas dissolvidas decoram seu chão.

 

Giralua sonha um sonho romântico:

exalar poesia na escuridão.

 

 

Revista Navalhista

 

 

o litoral flutuante 

 

“coqueiros e girafas

são basicamente pescoço”

– disse o geômetra endividado

adentrando o pantanal nocivo

onde números complexos 

e ovos mexidos

se desentendem

 

o músculo verde de anteontem

feito de fibras de bigode e dinheiro 

esculpe a ausência em forma de sanduíche 

 

a régua do tempo

mesmo antes de a casa estar finalizada

já se impõe sobre os cômodos vazios

curvando-os sob o peso das 

amêndoas em delírio

 

o ritmo da lama é tumulto

o real e o imaginário se solidificam 

apenas quando dançam 

 

e a muda fofoqueira 

acerta quando aponta:

“onde a lógica se perde

a poesia se encontra”

 

 

Revista Navalhista

 

 

o abajur

 

numa praia azulejada 

um violão sem cordas clama

o espelho cospe repetidamente

grandes morangos maduros

um curió pousa na voz 

da telefonista belga

que teima teima em contar 

segredos para a noite surda

o mundo mais parece 

uma orquestra

de pirilampos e fotocopiadoras

a dissolver os muros 

na luz da lua

 

o abajur toca sem parar

mas ninguém atende

pois ninguém quer acordar

 

 

Revista Navalhista

 

 

o náufrago 

 

sobre o viaduto flácido 

a chuva cai verdemente

em pingos que perfuram

o asfalto  

 

meu tênis gasto 

marca o tempo 

que não se perde

enquanto um relógio rude

ruge a fome

em meu nariz

 

buzinas ecoam 

a sinfonia de açúcar 

que se dissipa na água 

e na grama do céu

 

me distraio com a dança 

dos talheres de pano

esqueço por um instante 

que uma ferida sorriu

 

um náufrago me acena

do alto de um prédio 

sussurro para ele:

o abrigo possível

num domingo invernoso

é o sétimo desejo

da esquerda para a direita

 

 

Revista Navalhista

 

 

sobretudo: o vento

 

o corpo existe para o movimento

a mente existe para o pensamento

o peito existe para o sentimento

a estrela existe para o firmamento

 

a boca existe para o alimento

o sol existe para o aquecimento

a ideia existe para o argumento

o aceno existe para o cumprimento

 

o sal existe para o condimento

a folha existe para o documento

o aluno existe para o fardamento

a estátua existe para o monumento

 

a moça existe para o alumbramento

o vinho existe para o esquecimento

a hóstia existe para o sacramento

o bardo existe para o fingimento

 

o corpo a mente o peito a estrela

a boca o sol a ideia o aceno

o sal a folha o aluno a estátua

a moça o vinho a hóstia o vento

 

 

Revista Navalhista

 

 

o difícil

 

o simples 

é o difícil 

é o simples

 

dizer tudo 

com todas 

as palavras 

é fácil

difícil 

é dizer tudo

com três ou quatro

 

quase tudo 

que se fala 

é entulho

quase tudo 

que se fala 

se fala 

com muito

 

que nem areia na praia

 

quero ver 

falar o mesmo 

em menos 

de meia página 

 

o difícil 

é o simples 

é o difícil


Rodrigo Pinto

Rodrigo Pinto nasceu em Olinda/PE, em 13 de março de 1976, mas sua geografia sentimental foi toda desenhada no e pelo Recife. É bacharel em Direito e licenciado em Letras, com especialização em Língua e Literatura Inglesa. Escreve e compõe canções desde a adolescência, pois acredita que a vida somente não basta. Participou de diversas coletâneas de contos e poemas. Publicou os livros Violentamente azul (poesia/Editora Vacatussa), em 2022, e O centauro taciturno (contos/Opera Editorial), em 2024. Trabalha como professor de Inglês e Português no IFPE/Campus Caruaru. Inveja os pescadores, os acendedores de lampiões e os matemáticos.

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