Nascer como bicha da baixada, morrer como Bjork: a forte narrativa poética de Leo Nunes
Nascer como bicha da baixada, morrer como Bjork: a forte narrativa poética de Leo Nunes

Nascer como bicha da baixada, morrer como Bjork: a forte narrativa poética de Leo Nunes

por Gustavo Freixeda,

escritor e navalhista assistente

(perfil completo)

Há livros de poesia que se apresentam como um conjunto de poemas independentes, soltos, unidos (se tanto) pelo estilo da pessoa que escreve. Esses livros, sejamos sinceros, acabam morrendo na praia, ainda que tenham um ou outro bom texto. É o que difere um álbum com boas canções (a título de exemplo: A Hard Day’s Night) de um álbum que tenha boas canções que, juntas, formem um conceito maior (ex: Abbey Road ou Sgt. Pepper’s). Outras obras de poesia, então, sabendo disso, constroem uma unidade, uma coerência interna que permite a quem lê acompanhar um percurso, como se estivesse diante de um romance ou uma peça de teatro. Está na hora de me tornar um homem sério, de Leo Nunes, com seu andamento envolvente e lógico, está na segunda categoria. 

Lançado no final de 2023 pela editora Minimalismos, e finalista do Jabuti do ano passado, o livro toca como uma espécie de narrativa poética, um trajeto emocional e intelectual que percorre a identidade, o desejo e a memória para desaguar na dor de existir enquanto um homem gay no Brasil contemporâneo e evaporar na leveza de já não esperar muito do mundo — tudo isso sem concessões e filtros, com apenas a sedutora vermelhidão de um acúmulo de feridas em carne viva.

Longe de ser hermética ou de difícil acesso, a escrita de Nunes tem apelo. Seus versos são diretos, crus, muitas vezes irônicos, e trazem um olhar que mistura experiência pessoal e comentário social, sem cair na armadilha da vitimização ou do melodrama — muito embora estejamos diante, praticamente, de uma epopéia. O resultado é uma obra intensa, provocadora e humana, que dialoga com a tradição da poética brasileira ao mesmo tempo em que busca novas formas de expressão. Para qualquer pessoa que se atreva a escrever, com o perdão do gringuismo, esse é o sweet spot.

O primeiro grande mérito do livro é a articulação dos poemas dentro de uma estrutura que sugere uma integração especial, por vezes espacial, entre eles. As poesias estão divididas em 3 seções e, nessa escolha, há uma trajetória muito bem delineada, não necessariamente linear, que vai desde a infância e juventude do autor — e das primeiras manifestações enquanto sujeito queer, algo dito em versos ótimos que relatam quando descobriu “a miopia” — até uma maturidade mais melancólica e questionadora. É interessante notar como a ironia e o bom humor dos poemas que evocam o passado funcionam quase como um mecanismo de sobrevivência, uma forma de ressignificar experiências que, na época, talvez tenham sido tudo menos engraçadas. 

O poema para uma bicha da baixada estabelece esse tom logo início. Nele, acompanhamos a dificuldade de acesso à própria sexualidade, em um contexto onde ser gay significa viver na clandestinidade. O desejo surge como algo a ser descoberto de maneira fragmentada, por meio de imagens fugidias — um corpo nu vislumbrado por acaso, a contracapa de um DVD erótico. Essa sensação de repressão forçada, tão presente na experiência de muitos homens gays, é retratada com vivacidade, sendo os versos praticamente estilhaços de uma guerra interna.

Leo Nunes

Outro poema fundamental nesse primeiro momento da obra é os meninos na igreja, que retrata o ambiente religioso como um espaço de coibição e controle. Aqui, Nunes não apenas fala do medo de ser descoberto, mas do medo de não poder deixar quaisquer rastros e de, portanto, não poder existir plenamente. A sugestão é a de que a impossibilidade de não deixar marcas dos dias de hoje, com a digitalização e a invasão de privacidade, talvez não seja tão novidade assim. A metáfora que usa, de nomes riscados nos bancos da igreja e nas carteiras da escola — signo que perduram e coisa que “bichas” não podem fazer — sintetiza com simplicidade a dolorosa sensação de que é, sim, necessário que se preze pela irrastreabilidade de toda e qualquer sexualidade. Esse acaba sendo um fio que atravessa a tapeçaria da obra.

Conforme o livro avança, essa trajetória se torna mais complexa, mais divertida e mais trágica. Se no início há uma busca por se afirmar e se entender, nos poemas mais adiantados vemos uma progressão para um estado de desencanto e ironia (um drama por si só). Poemas como a vida no apartamento 1107, desejo e um homem morre no banho exploram a solidão da vida adulta, os pequenos dramas cotidianos que culminam em mortes sequenciais sem brilho e a percepção do corpo e do desejo como elementos que se desgastam com o tempo. Quando Nunes escreve morrer com uma pá de cal/ de uma pá de coisas/ com alguém dormindo sobre meu túmulo, não está evocando o descanso da escuridão eterna, mas a escuridão que se faz de dentro do caixão, aquela que é consciente, temida e que está a palmos de distância de um dia ensolarado.  

Também escreve morrer no dia da morte de Silvio Santos/ morrer no dia do meu nascimento/ morrer como Bjork morrerá e eis o mistério daquilo que ainda não conhecemos, mas que parece, a um só tempo, atraente e aterrador: morrer no dia em que ninguém saberá que se morreu; morrer da mesma forma que um ícone e, se há alguma morte que tem o potencial de ser um deslumbre, é a de Bjork. Isso se aplica à própria existência de quem está usando essas palavras: por um lado, morrer e nunca ser lembrado; por outro, usar um vestido de cisne na premiação hollywoodiana que leva aos céus, sem que nada atrapalhe o glamour, a não ser a dificuldade imposta pelo show midiático autoimposto.

Com a narrativa de alicerce, ela também se revela na forma. Sua inventividade se faz presente na estrutura dos poemas, que vão de narrativas líricas a listas, passando por experimentações visuais e diálogos com outras linguagens. Essa ousadia formal já se anuncia antes mesmo da leitura começar: em vez de uma abertura convencional apenas com ficha catalográfica e uma epígrafe (que estão lá), o livro dá boas-vindas com uma contagem regressiva cinematográfica — “três, dois, um” — acompanhada de um provocador “calma o livro já vai começar”. É um gesto simples, mas que, em alguma medida, antecipa a atmosfera da obra: uma poesia que se lê e que se experimenta.

Está na hora de me tornar um homem sério é feito de identidade, memória e desejo, construindo uma poética da afirmação e da resistência sem cair no panfletário. Sua abordagem da sexualidade é tão ampla quanto pessoal. Do pequeno, o grande se revela; do grande, o pequeno se esconde para gerar simpatia. O passado, assim, nunca é algo distante, está sempre lá. O poema mancha no teto é presságio e lembrança fala bem dessa relação com o tempo e a sexualidade: a mancha no teto cresce e se expande, assim como as lembranças, que nunca desaparecem e vão mudando e crescendo conforme a vida vai andando. Esse jogo entre passado e presente é essencial para a narrativa de sobrevivência do livro. É o menino versus o homem; a mancha que não se via versus a mancha que não pode ser ignorada; a vida versus a morte.
Um poeta sério, é seguro dizer, Leo Nunes já é. De bicha da baixada, ele começa a pavimentar o caminho para poetizar como Bjork poetiza, sempre flertando com a morte — ainda que se questione se algum dia ela de fato morrerá — e, agora, andando pelo tapete vermelho com um figurino avant garde que dá o que falar.


Leo Nunes

Leo Nunes é poeta, nasceu em Duque de Caxias, bebe coca-cola todos os dias e publicou “está na hora de me tornar um homem sério” (Minimalismos), livro finalista do Jabuti 2024 na categoria Escritor Estreante – Poesia.

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