Aprendi na escola a escrever um diário. Tinha de o fazer para as notas de redação. O pouco tempo que fiquei na instituição destinada a educar os cidadãos, aprendi os rudimentos da leitura e da escrita, e só. O diário eu execrava, pois não conseguia escrever nada para alguém ler. Estou a lembrar desses dias de fuga da escrita… e agora eu não tenho para onde fugir, senão para ela… Eu não escrevo meu querido diário, não tem nada de belo em tudo que arremesso como lixo sem separação, é tudo asqueroso, nada dá para reciclar, tudo que é podre vai para o mesmo lugar. As palavras nas parcas folhas de papel, amarelecidas, fedidas, sujas, os porcos sentimentos que vem de um lugar que não é alma, mas que finge ser, porque não sei de onde vem, às vezes acho que nasci sem coração, embora sei que preciso de um músculo para bombear sangue e bater sem parar para me manter vivo, bater sem parar é o que eu mais conheço, a minha vida toda é um enorme coração a esbofetear-me. E eu brinco junto e bato de volta. Tem muitas coisas que eu não sei, como por exemplo, o que é pai, afinal tinha uma mãe que trabalhava sempre à noite e dormia de dia. Ela disse que a minha história era clássica no meio em que vivíamos. Demorou a perceber que eu estava dentro dela e não deu para fazer o aborto a tempo sem correr muitos riscos, não conseguiu matar-me antes de eu chegar a esse mundo estranho. Sem colo, sem alimento e sem afeto, fui crescendo numa comunidade que tinha avós, muitas mulheres desacompanhadas e crianças como eu. Exatamente como eu. Os homens eram algozes que viviam no mesmo espaço, mas não pertenciam a nada. Foi nesse círculo que cresci. Ou talvez, aumentei de tamanho, o que aumentou também o oco que era dentro de mim. Quando eu quis saber o que era pai, ouvia piadas e gargalhadas como resposta. Achei melhor não insistir no desconhecido para não ser ridicularizado ainda mais. Sou filho da noite sem lua e, sem sobrenome, sem voz, sem vez, habitei o que era a cidade pelos caminhos mais sórdidos e infelizes. E muitas outras coisas eu continuei sem saber. Algumas pude conhecer bem. Inevitavelmente.
Quando criança, a maldade recaía sobre os animais, sempre achei que eram subseres e que mereciam todo tipo de tortura. Era gostoso ver o sofrimento deles, ouvir a angústia de um esfacelamento, de uma amputação ou o som das pedradas disparadas já sobre os corpos mortos. Éramos uma turma de uns oito ou nove, todos como eu, formávamos uma família, a dos abandonados e esquecidos. Não havia punição, quem se importava conosco? Os animais estavam à solta, eram presas fáceis, encontrávamos em abundância em todo lugar e assim alimentávamo-nos das delícias que nunca tivemos.
Pequenos furtos nem contavam como delito, pois também era muito natural, uma cultura da nossa tribo. Como íamos comprar nosso fumo e as pequenas ambições consumistas? Pegando dos mais distraídos, claro, o que era muito fácil de conseguir, comecei e foi um vício. Deixei os animais em paz, já não me satisfazia tanto assim, acho que era um fim de infância, ou sei lá se tive essas coisas, sou um corpo que respira e anda, apenas, desenvolvi-me fisiologicamente como uma inevitável sentença e sofri as consequências do meio em que fui sorteado para estar.
No início da adolescência, com um corpo desenvolvido como o de um adulto, destacava-me pelo porte encorpado de homem e já sabia dos perigos que podia correr. Alguns mais excitantes que outros, e eu preferia sempre os mais comprometedores, davam-me poder. Acho que senti o que era a tal da luxúria quando fascinado pelo desejo de possuir alguém com toda a fúria da minha dureza. A minha lista de violações não sei mensurar e quando eu fodia agressivamente só pensava na minha mãe e a violência aumentava até deixar praticamente inconscientes as meninas que me atraíam. Gostei também dos rapazes, mas muitos apreciavam as minhas investidas e agressões, e eu não via graça nisso. Eu gostava de saber que tinham medo de mim. Eu era ameaçador somente por ser eu mesmo. Mas foi uma fase que também passou. Acho que ser humano é isso, não sossega, mudamos o tempo todo. Mudei também.
O tempo foi passando como um aglomerado de dias sem sentido que se avolumavam no número da minha idade como uma partida de sobrevivência, mas se meu time perdia, atirava bombas que eu mesmo fazia para tudo quanto é lado e fazia vítimas que não aplacavam a vitimização em meu peito. A fúria e o desconsolo caminhavam sempre ao meu lado. No dia do meu aniversário também gostava das bombas, jogá-las a ermo era o meu jeito de desejar parabéns para mim mesmo. Era a vela do bolo que nunca tive.
Para acompanhar os meus padrões, mudei a forma dos roubos e furtos, maior de idade pela legislação, eu queria mais. Mais dinheiro, mais droga, mais prazer, mais violência. Queria ver sofrimento, queria tortura e mais poder marginal. Tornei requintado todo o processo de obter o que queria. Não queria mais pegar dos distraídos, eu queria peixe grande. Tinha de pensar em como driblar a segurança e certificar-me de que a recompensa seria boa, pois não podia apostar para perder. No fundo eu queria mesmo saber quem podia me parar. Quem? A polícia? A justiça? deus? Esse último é um sujeitinho metido a besta que fez seu nome em cima da miséria e da descrença das pessoas. Para cima de mim, não. Não tem nada de deus na vida de muita gente, tem é acidente de nascimento, vida que sobrevive a teimar todas as possibilidades, a vingar todas as tormentas, e a gozar das mais diversas mazelas.
Mas um dia alguém me parou. Chegou esse dia. Calculei mal a brutalidade e a procedência da vítima. A família era mais influente na polícia do que eu pensei e não quiseram deixar barato, pois homem honrado merece que seu assassino pague como tem de ser. Como eram honestos, deixaram para a justiça resolver, mas antes me fizeram sentir na pele tudo que pratiquei com gente e com animal, exceto o extermínio. Fizeram tudo, e muitas vezes eu preferia que tivessem acabado comigo de uma vez, que tivessem exterminado a minha existência, repito exterminado, exterminado, exterminado! Deixavam-me semi-vivo toda vez que me espancavam, curravam ou torturavam simplesmente. Brincavam com ferramentas e fogo em todo o meu corpo, acho que era para eu lembrar que no jogo da vida estamos empatados. Como eu nunca pensei em apitar o final desta partida antes de passar por tudo isso? No fundo todo mundo quer prazer e é isso que prende as pessoas aqui, mais que qualquer outra coisa, sentir prazer faz com que não se queira provocar a própria morte, mesmo que esse prazer venha disfarçado de crime, abuso e perversão. E eu tinha tudo isso. Era o que eu buscava e sempre conseguia. Não consigo me arrepender, embora eu nem tente, porque sei que era o que tinha de ser. Eu fiz as minhas escolhas? Eu tinha opção? Eu tinha razão? Eu tinha alguma coisa? Dizem que o que eu tenho é transtorno de personalidade… mas isso eu não sei, não…
Dizem, mais uma vez, dizem, que quando escrevemos, tiramos da cabeça e passamos para outro lado qualquer, o papel, a parede, o vaso sanitário, o muro, mas quanto mais escrevo com o que sobrou dos meus dedos e da minha visão, mais revivo tudo isso. Fica registrado mais de uma vez. Da minha cabeça não sai, o meu corpo marcado me mostra a toda hora e pode multiplicar-se dependendo do número de leitores. O registro é exponencial.
Do aperto da cela fétida em que me encontro, sem iluminação ou qualquer coisa que se respire, não sou capaz de me livrar do desassossego que é a minha vida, não sou capaz de me afastar de mim.

Luciana Morais, revisora de textos e pós-graduada na área da educação. Autora em plataformas e revistas digitais. Tem contos, poemas e microcontos em coletâneas publicadas no Brasil e Portugal. Gosta de livros, abraços e flores. Consulta oráculos e toma chá. Medita e faz artesanato. Mãe de dois adolescentes incríveis. Mineira de Belo Horizonte que vive em Coimbra desde 2020.
Querida Luciana, adorei. Toque de vida sombria, de consequências inevitáveis que a personagem/ narrador reconhece e espera.
Um desassossego de vida, de família, de saúde individual e social.
A escrita é refúgio e exposição de personagens que o narrador manipula quais cordelinhos teatrais.