Glosa íntimas consteladas: o eterno flerte para desmantelar vulcões [resenha]
Glosa íntimas consteladas: o eterno flerte para desmantelar vulcões [resenha]

Glosa íntimas consteladas: o eterno flerte para desmantelar vulcões [resenha]

por Mayk Oliveira,

poeta e colunista da Revista Navalhista

(perfil completo)

Para os estoicos, o amor deve ser apreciado e vivido com moderação, sem apego excessivo ou dependência emocional. O foco principal está na virtude e no desenvolvimento pessoal, e o amor, quando presente, deve ser uma expressão dessa virtude, não uma fonte de perturbação. Os adeptos dessa corrente concordam em evitar o tipo errado de amor.

No entanto, em Prelúdio da Pequena Morte, de Andréa Villa-Lobos (Mondru, 2025) há uma entrega por completo à tarefa (infinda?) de nomear o amor, o desejo e suas reverberações. A poeta mergulha em uma tradição milenar que vai do Cântico dos Cânticos ao erotismo de Safo, de Platão a Lacan, de Drummond a Pessoa para construir ousadamente uma cartografia emocional do corpo e da linguagem em constante tensão.

Andréa Villa-Lobos, definitivamente não é estoica, a não ser que seja uma estoica que escorregou lindamente numa poça de vinho tinto em alguma lacanice matinal. Onde os estoicos perguntam “como não sofrer por amor?”, Andréa parece responder “mas como não viver por ele?” Se o estoico encontra serenidade ao domar a paixão, Andréa encontra poesia justamente ao soltá-la da coleira.

O livro se inicia com um preâmbulo teórico-poético que serve como chave de leitura. Nele, a autora delimita sua aposta de escrever sobre o amor, mesmo sabendo que tudo já foi dito. O desafio passa a ser não apenas temático, mas formal, linguístico e existencial. O gesto da escrita quer falar de amor, mas redunda no corpo desejoso que se escreve justamente porque não se consuma. Dessa maneira, o livro traz o ensaio sensível sobre estados de alma, de corpo, de linguagem. A “pequena morte” (la petite mort), associada ao clímax amoroso, torna-se metáfora para a poesia; para instante de suspensão, de vazio criativo, de epifania.

A estrutura da obra em capítulos-poemas como “Desejo”, “Paixão”, “Amor”, “Cheiro”, “Devagar”, “Enlace” indica um percurso sensorial, que se desenvolve em espiral com camadas que se sobrepõem e se entrelaçam. O erotismo se revela mais como linguagem do que como ato. Acontece no sussurro, no gesto suspenso, no cheiro que antecede o toque que o texto aviva. Dentro dessas pequenas notações, uma espécie de “glosas íntimas”, a poeta esboça algo que extrapola a matéria do poema. O romantismo sedutor e o eterno flerte são inscrições em tom Azeviche, a pedra negra que se crê capaz de afastar o mal e proteger a alma. Não por acaso, a escrita de Andréa Villa-Lobos parece portar o gesto ritualístico avidado de algo além da superfície. Talvez seja um amuleto poético ou ao menos de revelação.

A glosa, nesse caso, não é mero ornamento e sim o próprio corpo do feitiço. Os poemas carregam a tensão entre o negrume e a luz. O escuro, ou melhor, o “negrume da noite”, não é ausência. Na verdade, é o campo cujo o desejo se faz mais nítido, onde a purificação espiritual não se opõe ao erótico, mas dele emerge. Os versos são brasas disfarçadas de cinza e neles há fogo, mas é um fogo domado pela linguagem. Villa-Lobos escreve segurando o amuleto no bolso, sem mostrar, mas deixando-o tocar em cada gesto, cada frase. Na sua poesia o dia só pode ser realizado pela noite como se o amor, o toque e a falta precisassem primeiro tocaiar o escuro para, então, acender o corpo. Nessa alquimia, o desejo é matéria e ferramenta. Não se trata de desejar alguém apenas, mas de desejar escrever, desejar dizer, desejar existir através da linguagem.  

A poeta se mostra hábil em evitar o lugar-comum, não por censura temática, mas pela reinvenção das formas. Versos como “Uma metáfora se ancora / a um cheiro de rosas / selvagens e ascendem” ou “Em plenitude, um deus / masculino é o desejo” revelam imagens sensoriais que se desdobram em camadas simbólicas. A linguagem poética é fluida, marcada por musicalidade, sinestesia e movimento. Outro ponto de destaque é o constante diálogo com a tradição literária e filosófica. O que vimos no preâmbulo legitima o fazer poético ao colocar a obra no campo de uma genealogia. Encontra-se ressonâncias de Rilke, Gullar, Mário Quintana, mas também de Lacan e Nietzsche, numa oscilação entre o íntimo e o conceitual.

A autora sabe que escrever sobre amor exige a vivência e a consciência do que significa fazer poesia hoje, em um mundo saturado de imagens e discursos. No campo das formas, a autora domina bem o ritmo, a quebra de versos e a sugestão. Os poemas são curtos, sem pressa, nunca prolixos. A cadência dos versos acompanha o conteúdo. Pois quando fala de flerte, o poema dança; quando fala de tédio, o ritmo abranda. Prelúdio da Pequena Morte é um livro que reconhece a fragilidade do amor, mas não se rende ao cinismo. Andréa Villa-Lobos faz da poesia um modo de viver o amor em sua plenitude, mesmo quando ele é apenas ausência ou lembrança. Um livro maduro, sensual e inteligente, que merece ser lido com todos os sentidos abertos e com um certo cuidado, como se manuseasse um amuleto sagrado que vibra em silêncio, na palma da mão.


Andrea Villa-Lobos

Andrea Villa-Lobos é Psicóloga. Escreve poemas e outros gêneros, sob um discreto viés filosófico/psicanalítico, para tanto mergulha na complexidade das relações humanas, refletindo sobre a natureza da poesia/prosa e da linguagem em traduzir a essência das emoções, a partir de temas como: amor, desejo, paixão, vazio e a inevitável perda. Livros recentes: Réstia… um movimento na penumbra, 2020 (Glaciar), Onde cravam os dentes, 2022, Recortes do vazio, 2021 (Penalux), Não o amor, mas os arredores (Kotter) 2023. Faz parte da Coleção Insubmissas, (Mondru), com Prelúdio da pequena morte.

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