por Gustavo Freixeda,
escritor e colunista da Revista Navalhista
Um pequeno crente do absurdo escuta Raul
Raios, Raul, Relâmpagos: cartas a um poeta anárquico parte de um lugar pouco habitual no trato de figuras míticas como Raul Seixas. Em vez da biografia, da crítica musical ou da celebração saudosista, temos aqui cartas, numa homenagem epistolar-poética. Isso desloca o centro da fala, o que gera um resultado interessante. A obra não vai na vala de tentar explicar Raul, tampouco organizá-lo em alguma chave de leitura definitiva. A ela convém escutar. E, a partir dessa escuta, escrever.
Dividida em doze cartas acompanhadas de doze poemas, a plaquete traça seu percurso pelos álbuns de Raul — o que não quer dizer que esta seja uma leitura musicológica, uma tentativa de interpretação sistemática ou qualquer coisa que o valha. Cada carta germina de uma espécie de contato subjetivo com os discos, como se o autor buscasse, nas entrelinhas das canções, não tanto o seu sentido, mas sua vibração, sua rotação. Ao final de cada uma delas, o poema surge como uma continuação do gesto de escuta, uma escrita que prolonga, traduz em imagens o que ficou em suspenso.
Na introdução, Miguez estabelece o chão sobre o qual pisaremos dali adiante: o ponto de partida é tanto a memória da morte de Raul em 1989, quando ele tinha apenas dez anos, quanto a convivência recente com seus filhos escutando juntos a discografia do cantor. Outra motivação é o reencontro com a figura de Raul com a série Raul Seixas: Eu sou, da GloboPlay, que parece acionar um movimento de retorno e reinvenção (em Miguez e em tantas outras pessoas). Esse ponto é fundamental, pois a plaquete nasce da escuta atualizada de Raul, não da memória fossilizada. Revisitar a obra do artista não para perpetuar sua imagem (que, convenhamos, já está perpetuada), mas para perguntar o que ela ainda pode nos dizer, ou exigir, hoje.
Ao longo das cartas, Seixas é abordado como um artista em permanente travessia. Do berro inaugural de Krig-Há, Bandolo! ao derradeiro A Panela do Diabo, o que se pinta sobre a lona é um retrato em movimento, feito de tensões entre o sagrado e o profano, o místico e o popular, o delírio e a lucidez. Miguez evita a canonização — ainda que, por vezes, seu tom se aproxime do devocional — com um olhar de quem compreende que Raul se valeu da linguagem da contradição para compor uma obra que quer indomar o mundo, que quer fazer ressoar a tão almejada anarquia pop.

Nesse sentido, o autor se posiciona menos como analista e mais como um “pequeno crente do absurdo”, expressão que ele próprio usa em uma das cartas, alguém que, diante das canções, se ajoelha feito reza, mas o fazendo para escutar. Há espanto, ironia, reverência e desconfiança. A crença em Raul é um tipo de fé sem igreja, movida pelo poder da linguagem e pela recusa a aceitar o óbvio como destino.
A escolha da carta como forma literária reforça essa tentativa de aproximação. Escrever diretamente para Raul, e não sobre ele, é suspender a postura do intérprete e assumir a de interlocutor. É uma escrita que se arrisca a responder, comentar, cruzar memórias com discos, sons com experiências, e assim estabelece um diálogo impossível com o artista morto cuja obra insiste em permanecer ativa, ruidosa e incômoda.
Os poemas que acompanham cada carta ecoam seu prelúdio. A forma é fragmentária, sem título, sem pontuação excessiva. Há imagens fortes — “um altar de vinil riscado de verdades”, “a panela chiava no canto e ninguém mexia” — que retomam de maneira sintética o espírito das cartas. Esses poemas são parte integrante do gesto de escuta.
A plaquete se encerra com o autor abandonando o formato álbum-carta e falando diretamente sobre o que a travessia representou, a percepção de que a obra de Raul é menos um repositório de mensagens e mais uma máquina de inquietação. Miguez escreve: “Sua música não nos leva para o passado, nos devolve ao agora com olhos queimando”. Esta talvez seja a síntese do livro: não há nostalgia aqui, há uma forte presença.
Raios, Raul, Relâmpagos faz de Raul um espírito inquieto que ainda ronda. E Giovani Miguez, ao escutá-lo, não faz menção nenhuma a sua captura. Quer por ele se deixar atravessar.
Neste registro curto, há um ruído longo que ainda pulsa entre nós.

Giovani Miguez é poeta, escritor e servidor público. Especialista em Sociologia e Psicanálise, mestre e doutor em Ciência da Informação, com formação em Biblioterapia e mediação de leitura. Nascido em Volta Redonda (RJ), hoje reside no Rio de Janeiro. É autor de 18 livros, entre eles os recentes Um elogio à preguiça, Amor fati e Notações paridas (Uiclap, 2024). Na sua poesia, Miguez explora a expressão e reflexão existencial. Ora lírico, ora político, ora científico, mas sempre est(ético), o poeta segue sendo profundo em suas generalidades.